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Liberdade criativa mantém Marcelo Adnet na MTV

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Marcelo Adnet é hilário dentro ou fora dos palcos, na MTV ou no cinema – seu 13º filme, Os Penetras, acaba de estrear. É daqueles capazes de arrancar gargalhadas até dos mais mal-humorados. Mas não se sente à vontade no papel de protagonista da nova geração de humoristas. “Tem uma nova onda, claro, me sinto nessa onda, mas não como protagonista – principalmente em questão de público”, declara o carioca de 31 anos, nascido no Humaitá, zona sul do Rio. Casado com a também humorista Dani Calabresa, é refratário à tese de que o humor brasileiro passa por uma espécie de renascimento. Acredita que há fases e formas diferentes de fazer rir. A atual, diante da concorrência da internet, torna o público mais exigente. “Isso eleva o nível da discussão”, afirma o profissional, conhecido pelas referências sofisticadas. De família de músicos e formado em Jornalismo, decidiu seguir carreira ao pisar em um palco pela primeira vez, aos 21 anos. Ídolos? Chico Anysio é seu “camisa 10″, mas o rol de inspirações daria para montar um time de futebol. Começou a imitar políticos ainda na infância – daí as fortes lembranças das eleições presidenciais de 1989. Afirma que, por “acreditar no comunismo”, estudou russo na adolescência. Hoje, está decepcionado com o mensalão e com a “pasteurização” dos partidos. “Fico dividido porque acho que os projetos são parecidos, está tudo muito PMDB, neutro”. Como se vê, Marcelo Adnet também fala sério. 

Quando você decidiu seguir a carreira de humorista?
Nunca tinha feito teatro, e, na primeira vez em que encenei o Z.É. (o espetáculo Zenas Emprovisadas), senti que aquilo era o negócio. Não tinha certeza de que seria humorista, mas, sabia que era minha vocação. Tinha 21 anos.

Na infância, lembra o que despertou a veia humorística?
Gostava muito de política quando criança, acompanhava o horário eleitoral, lia os jornais, desenhava políticos e apresentadores, imitava as vozes deles. Mas era por causa de uma fixação minha, não para fazer graça. Em 89, vivíamos a era Lula-Collor, com a primeira eleição direta para presidente. Teve também o título do Botafogo depois de 21 anos. Foi um ano especial (Adnet é botafoguense). Era a época do TV Pirata e do Casseta e Planeta.

Foram suas influências?
Sim, aquele foi um período muito inovador.

Fala-se de um novo movimento no humor brasileiro. Você ocupa o papel de protagonista?
Acho que não. Sou jovem ainda. Isso é chato, parece que esse momento sempre tem algo especial e nem sempre é assim. Pela própria internet disponibilizar tanta coisa, houve mudanças. Hoje, é mais difícil fazer humor de personagem porque, como você compete com Jeremias, o bêbado (vídeo popular no YouTube que mostra homem embriagado e que chegou a ser detido em Pernambuco), tem gente fazendo um monte de coisa. Isso deixa a representação ficar mais difícil. Tem uma nova onda, claro, me sinto nessa onda, mas não como protagonista – principalmente em questão de público.

Quem são os protagonistas?
Em questão de público, o pessoal do Zorra Total, o Rodrigo Sant’ Anna, que faz a Valéria Bandida. Agora, reconhecimento, opinião pública e crítica são coisas diferentes. Eu acho que não sou o protagonista, mas divido quase que igualmente o protagonismo com Danilo (Gentili), Rafinha (Bastos), Eduardo Sterblitch, a Tatá (Werneck), a Dani (Calabresa, mulher de Adnet), o pessoal do Zorra, o Marcius Melhen, o Leandro Hassum. As coisas mudam muito rápido. Tem também o Paulo Gustavo, o Fabio Porchat. Todos eles representam algo novo e cada um à sua maneira. Acho que a gente divide esse protagonismo da classe A, da opinião, da crítica. Agora, o público, o que se chama de classe C, o número? Aí, com certeza não. E isso não é uma coisa que me faz muito feliz. Às vezes, é difícil você fazer um trabalho que pode ser muito bom, mas que pouquíssimas pessoas assistiram. E talvez as pessoas que mais precisem de entretenimento.

Seu público é elitizado? Porque você tem referências sofisticadas, nem todos entendem a piada…
Em sua maioria sim. Mas tem um meio termo.

Existe um humor para a classe A e outro para a classe C?
Existe um humor “para”.

E você se encaixa onde?
Tenho momentos, e acho isso muito legal. Aqui na MTV, a gente acerta na classe A muitas vezes – com Gaiola das Cabeçudas ou Indiretas Já – ou faz uma cena bem mais compreensível, como o Homem VIP, que todo mundo entende. Comédias e esquetes são quadros mais concentuais, mas há coisas mais acessíveis. Não acho nada melhor ou pior por causa disso.

Como você definiria o humor?
Acho que o humor é aquilo que leva ao riso ou a um estado de excitação intelectual.

Hoje, o humorista precisa ser mais sofisticado?
Sim, e isso eleva o nível da discussão. Veja o Porta dos Fundos, por exemplo – feito pelo Fábio Porchat e pelo Gregório Duvivier. É uma galera que faz vídeos na internet com talento, falando de marcas, palavrão, coisas que você não pode na TV. É uma maneira boa de exercer a liberdade.

O que te mantém na MTV?
É um pacote. Nunca assinei contratos de mais de um ano com a MTV e sempre tive uma decisão a tomar, as propostas aconteceram. Transitei por cinema, publicidade, teatro e TV. Pelo fato de ser do Rio, que é muito artisticamente influenciado pela Globo, conheço muita gente. Mas o pacote da MTV – criar, experimentar sem uma cobrança de números – é muito legal. Isso é o que as pessoas chamam de liberdade. Por ser menor, ela pode ser experimental. Quem é maior não pode.

Você tem um ídolo no humor?
O Chico Anysio é o camisa 10. Costinha, Grande Otelo e Oscarito estão nesse time. Eu teria que colocar Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres fazendo uma tabelinha; Regina Casé, um pivô. Por ser jovem, não fica justo dizer, mas, do que vi, é o Chico Anysio. E o encantamento pela TV Pirata me faz admirar aquele time.

Você continua acompanhando política de perto?
Menos, mas ainda sinto uma paixão muito grande.

Votou na última eleição?
Não, levei numa boa porque a eleição no Rio já estava decidida. Acho que, cada vez mais, os partidos estão pasteurizados. Quem ganhar, faz coligação; quem fizer coligação com um lado hoje, faz com outro amanhã. O ideal que existia acabou. Sobrou a governabilidade: quem está no governo, para fazer a máquina andar, copia os modelos anteriores. Estudei russo porque acreditava no bloco do lado de lá. Votei no Lula, peguei bandeira, colei a estrela no peito e hoje fico dividido porque acho que os projetos são parecidos, está tudo muito PMDB, neutro. A política perdeu a paixão, não tenho muitos motivos para me envolver como em 89.

Você se decepcionou com o Lula por causa do mensalão?
Acho que o mensalão foi só uma coisa que veio à tona, isso me decepciona. Não se pode ter tudo. O cara, para governar, às vezes concilia interesses com todo mundo – inclusive com quem não deveria ter voz e espaço.

E o Dirceu, o que acha dele?
É difícil julgar. Não tenho dados para comprovar, mas o cara está condenado, que ele pague, que sirva de exemplo.

Você acompanhou o julgamento do mensalão?
Acompanhei. O brasileiro adora uma partida de futebol, tudo vira um evento. O número 7 é o artilheiro Joaquim Barbosa. Agora ele virou capitão do time, ganhou a bola de ouro. Tem uma coisa futebolística. O que me incomodou foi que todo mundo votou com um padrão – um juiz votou para condenar todo mundo e outro para liberar todo mundo. Gostaria de ver uma coisa mais mista, mas foi genial. Agora, para roubar, o cara vai tomar mais cuidado – infelizmente. A coisa está arraigada num nível que é difícil quebrar. Mas os esforços são válidos. Quem tem pedra nos rins tem que beber água. Vai curar? Não sei.

(Fonte: E+)

Tyra Naranjo

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